Tinha 36 anos completos naquele semestre, quando mais novo sempre imaginou que chegaria até ali bem diferente do que a realidade acabou se mostrando. Achou que seria mais responsável, que estaria mais "longe" em todos os aspectos de sua vida e principalmente, que todas aquelas velhas dúvidas não estariam mais ali.
Tudo bem que não soubesse de tudo sobre a vida, já que apesar de ser razoavelmente inteligente e ter algum estudo, não se considerava uma pessoa brilhante.
Mas apesar de saber pequenas coisas, não conhecia direito nem quem era, o que queria e onde pretendia estar. Não possuia muitas alternativas como destino, tinha uma vida totalmente mediana. Meio tarde para pensar nisso tudo não? Talvez.
Ponderou isso tudo ao sair da farmácia, sentindo um vento fresco que descia do céu em espirais convida-lo para tomar um café, gosto e aroma que lhe davam tanto prazer e que talvez serviriam para aliviar aquela angústia em seu peito.
Tantas vezes esquecera estes pensamentos entregando-se à prazeres fúteis(será que são mesmo? Será que algum prazer verdadeiro o é?), comprando livros e Cds, objetos de deliciosa inutilidade, indo ao cinema ou simplesmente tomando um mocaccino quente e doce, mas não, nada disso serviria daquela vez.
Naquele momento seus filhos não nascidos(porque não feitos) o chamavam, aquela faculdade ou curso não terminados(talvez nem iniciados) faziam falta, seus amigos não conhecidos, lugares não vistos. Tudo aquilo que era naturalmente seu, bastava apenas que esticasse a mão e que mereceu pouca atenção, e acabou sendo levado pelo tempo, agora pesavam nas suas costas.
Simplesmente caminhava olhando o rosto das pessoas que passavam por ele na rua, imaginando quantas daquelas vidas poderiam dizer-se verdadeiramente completas. Não importava, a sua não era.
Entrou em um destes hotéis vagabundos, acima de um sobrado. Passou pelas putas que ficavam ali em frente oferecendo seus préstimos e entrou. Do jeito que estava nem se fossem muito mais bonitas do que eram ele teria prestado mais atenção. Pegou as chaves do quarto e subiu a escada de madeira escura. Um estreito corredor, cheio de portinhas e com uma sacada que dava para a rua no final se apresentou.
Foi olhando os números, 31, 32, 33, 34, 35, 36...só podia ser sacanagem do cara, quarto 36! Sua idade! Entrou e viu a cama recém-arrumada, um pequeno remendo no tecido na altura da cabeceira, do lado direito. Um ventilador de teto, uma porta que se abria para o banheiro, janelas de veneziana verdes e paredes cor creme, já meio descascadas. Uma televisão no alto de um daqueles suportes estava desligada e seu fio pendia até uma tomada na parede.
Não pode deixar de imaginar os amores e sexos que já haviam sido feitos ali. Amores proibidos, clandestinos, suburbanos, necessitados, mal remunerados. Disso pelo menos entendia muito bem.
Sentou-se na cama e abriu o pacote da farmácia, enquanto ligava a TV. Canal aberto, algum programa de entrevistas populares. Marido que bateu na mulher que o traiu, filha que maltrata a mãe, um irmão que roubou o outro. Ah o ser humano...
Pegou um copo d´agua, colocou na mesa de cabeceira, tirou os sapatos e as meias e recostou-se no travesseiro. Abriu o vidrinho que tirou do pacote lendo "bromazepan". Brumário? Longe disso, aquilo era uma rendição.
Deve funcionar, pensou. Quantos? 10?20? Tudo né? Não teria porque ser econômico justo agora. Haveria quem chorasse é claro(será?). Haveria também quem dissesse que foi uma fraqueza, covardia. Estava mais preocupado é com a forma como seria recebido do outro lado, caso houvesse um outro lado, é claro. Acreditava que havia, mas vai saber.
Bem, restava torcer para que certas coisas que lera por aí não fossem verdades. Todas as religiões monoteístas que conhecia condenavam veementemente aquilo. Desejou ser um japonês nesse momento, algum kamikaze usando capacete e voando de cabeça rumo ao aço de um grande navio, com toda honra. Riu desse pensamento.
Colocou tudo em uma das mãos e ficou ali admirando aqueles pequenos comprimidos, pareciam até os mini-chicletes que ele comprava na saída do colégio quando era moleque.
Pensou nos diversos hotéis nos quais já estivera, feliz, triste, espairecendo e fugindo da realidade, amando, conhecendo o mundo, derpertando. Agora não haveria despertar. Como desejou um despertar.
Este não era dos piores, mas será que merecia a honra de ser o último? Nem ar-condicionado e TV a cabo tinha! A cama era dura, remendada(já dormira e amara em outras camas remendadas antes, mas isto?), no frigobar só tinha água e a frequencia, a tomar pelo movimento da portaria, parecia saída de um filme de zumbis, se é que podem existir mortos-vivos sexólatras.
Se pelo menos estivesse bebendo um whisky, numas suíte envidraçada com vista para o mar, um Tom Jobim tocando(samba do avião para uma despedida),um bilhete de adeus escrito numa folha destacada do seu moleskine e colocada sob a garrafa do Logan, para que não voasse. Mas água que não sabia nem se era mineral, ao som dos "Bate-bocas Populares" na televisão daquele quartinho abafado de um hotel cheio de putas do lado de fora,que privavelmente ficariam ali me olhando, comentando e especulando razões e apressariam o trabalho da polícia para que pudessem faturar uma graninha ali no cenário da minha despedida final, não. Não era um cenário decente para ninguém dar adeus a este mundo, pelo menos não voluntáriamente.
Um assassinato ali, vá lá, até combina com o lugar(solta uma gargalhada ao pensar nisso e ao mesmo tempo vê uma mancha na parece, seria chocolate?), mas suicídio? Não, não tinha como ser ali. Merecia algo melhor, ainda mais porque se não houvesse nada depois, aquela seria sua última experiência.
Recolheu os comprimidos, colando-os um a um de volta no vidrinho e calçou-se. O que será que está passando de bom no cinema? Pensou.
Saiu dali tão depressa quanto entrou, ganhando a rua em apenas alguns segundos. Respirou fundo aquele ar pesado de final de tarde, inicio de noite.
Seu senso estético e pretenso bom gosto, aliados ao seu horror ao desconforto o haviam salvo daquela vez. Ainda não fora aquela a sua despedida, riu pensando, mas sabe-se lá do que um quarto de frente no Caesar Park e aquele vidrinho no seu bolso não seriam capazes de fazer uma hora destas.
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1 comments:
Adorei esta percepção!
Meu "senso estético e pretenso bom gosto" também já me salvaram em muitas situações.
Aleluia, irmão!!!
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